RESENHA HISTÓRICA

 

 

HISTORIAL

 

Foi com esta simples folha, aqui apresentada na sua frente e verso, integralmente elaborada por mim, produzida de forma graciosa e gentil pela empresa “EGA” e distribuída, porta-a-porta, com pessoal empenho em toda a área habitacional da paróquia de São José, que tudo começou a ocorrer em termos públicos. Antes, havia já apresentado ao pároco, Padre José Garcia, a proposta de criação de um rancho de romeiros em São José, ideia imediatamente aceite, tendo dele recebido o apreço necessário para avançar com a concretização do projecto.
Em casa, a partir do mapa das pernoitas dos ranchos de romeiros quaresmais desta ilha de São Miguel, tinha estudado a semana em que o novo rancho deveria sair e as localidades onde poderia pernoitar. Este processo detalhado ao pormenor, envolveu o cuidado de reunir orações, cânticos, salvas e tudo quanto fosse indispensável para a saída organizada, metódica e eficiente de um rancho de romeiros que honrasse não apenas uma dignificante tradição secular mas, também, o seu patrono, São José. O projecto, minuciosamente delineado no seu conteúdo, foi posto à superior consideração do Grupo Coordenador do Movimento de Romeiros da Ilha de São Miguel que, oficialmente, o decidiu legitimar. Porém, a seriedade de um projecto desta natureza, levou-me conscientemente a pensar que seria frutuosa e profícua a opção de escolher para mestre de romeiros um homem que, pela sua formação, pudesse garantir ao futuro rancho, nos seus encontros de preparação e durante a própria caminhada, um nível de espiritualidade tão profundo e marcante que todos os romeiros se sentissem acolhidos na mais afectuosa e gratificante experiência de Deus. Apesar de tudo quanto aprendi e me ensinaram, com fraterna bondade, no Rancho de Romeiros de São Pedro, em Ponta Delgada, cujo mestre era o irmão Luís Salvador, sucessor do irmão mestre Manuel Francisco Caetano, mantive a firme decisão de contrariar a livre vontade do pároco de São José para ser eu próprio o mestre do primeiro rancho de romeiros da paróquia. Mais do que ter espírito de liderança e conhecer, por dentro, a dinâmica de um rancho de romeiros nos oito dias de caminhada, e os percursos tradicionais ao redor da ilha, em virtude da minha experiência adquirida no Rancho de Romeiros de São Pedro, entendia, tal como ainda hoje advogo, que os romeiros precisam, sobretudo, de um homem que os saiba conduzir pelos difíceis atalhos da reconversão e da fé; que promova, através de uma evangelização influente e esclarecedora, transformações audazes no interior de cada romeiro, que ofereça condições susceptíveis de proporcionar a todos os de coração simples, aberto e disponível, uma coragem inflexível nas suas almas e um vigor imenso nos seus corpos sofridos pela dureza da longa jornada. Um homem espiritualista, sim, profundamente humano, também, mas sem o contágio deste materialismo que invade o mundo… e não um líder preocupado, apenas, com os tempos cronometrados, escrupulosamente cumpridos, e com o número de terços a rezar de acordo com as distâncias a percorrer.
A meio dessa encruzilhada, fui até à Igreja de Nossa Senhora da Saúde, nos Arrifes, para a festa litúrgica, durante a qual, entre muitos outros jovens de ambos os sexos, a minha filha Elisa ia fazer a sua promessa de escuteira. Ali encontrei, por mera casualidade, o irmão Amílcar Duarte Vahía, antigo sacerdote de formação paulista, licenciado em Teologia e Filosofia, professor de religião e moral, já com alguma experiência de romeiro. Confesso, na verdade, que mal o conhecia, mas algo, no meu íntimo, me dizia que poderia ser este o homem que procurava para as funções de mestre do rancho de romeiros de São José. E ousei dirigir-me a ele. Atrevi-me, então, a fazer-lhe a pergunta: queres ser tu esse homem? Após momentos que me pareceram de interminável reflexão interior, acabou por me dizer que sim. Chorei de alegria! Tinha motivos para isso. Hoje todos se sentem agradecidos pela sua presença e recompensados pela superior qualidade do trabalho espiritual que desenvolve. Apresentei-o, depois, ao Padre José Garcia que, mesmo renitente (para quem o conhece sabe quanto ele é de têmpera rija), o aceitou para mestre de romeiros. Com o anúncio, feito com insistência no final das missas, relativamente à formação do rancho de romeiros de São José, começaram a surgir as primeiras adesões, nomeadamente, de acólitos e de responsáveis e membros ligados a movimentos da paróquia, muito em especial, do Agrupamento de Escuteiros Marítimos e do Grupo Coral, além de pessoas que, mais de fora do que de dentro da paróquia, se foram inscrevendo. Estruturado o rancho, segundo determina a própria tradição das romarias quaresmais, o maior problema surgiu com o número de oradores a quem fui ensinando, pacientemente, como se deviam fazer as orações, em diversas ocasiões e circunstâncias, tal como as aprendi no Rancho de Romeiros de São Pedro. Previdente, havia já oportunamente mandado fazer uns 60 livros plastificados para facilitar o trabalho dos oradores com tudo escrito ao detalhe, como se pode comprovar pelos exemplares que existem. A maioria das orações, trouxe-as com autorização dos irmãos romeiros de São Pedro, fiz algumas (de resto, muito pobres e modestas) e outras pedi-as a pessoas conhecidas e competentes como, por exemplo, o jornalista Santos Narciso. No entanto, grande parte das orações recolhi-as do livro do excelso poeta mariano, Padre José Jacinto Botelho, o primeiro sacerdote-romeiro desta ilha de São Miguel ou o primeiro romeiro-sacerdote a subir ao púlpito em plena vivência de uma romaria quaresmal. Pelo enorme respeito e devota admiração que me liga ao Padre José Jacinto Botelho, nascido em Ponta Garça a 2 de Março de 1876 e pároco das Furnas até à sua morte ocorrida no dia 14 de Abril de 1946, é que o Rancho de Romeiros de São José lhe presta, desde 2003, uma sentida homenagem junto à casa que o viu nascer. É da sua autoria o doce cântico da “Avé Maria Senhora”, o mais antigo e conhecido por todos os romeiros desta ilha. À excepção dos irmãos Daniel Melo (Guia), Paulo Soares (Procurador das Almas) e Amílcar Duarte Vahía (Mestre), além de mim (Contra-Mestre), ninguém havia tido ainda uma única experiência como romeiro. Todos os oradores eram estreantes, fazendo, pois, a sua primeira vivência como romeiros. Tudo se realizou, no entanto, com sucesso, a partir do que fora transmitido com um fervor quase apostólico. Resumi em papel todos os meus conhecimentos sobre as romarias para que cada um dos romeiros pudesse ler em casa, uma ou mais vezes, o que era absolutamente necessário aprender, inclusivé, os procedimentos adequados ao encontro inesperado de dois ranchos de romeiros no caminho. E, felizmente, tivemos a grata oportunidade de saborear essa inesquecível experiência. Nada foi esquecido nem coisa alguma deixada ao acaso. Somente a disposição interior de cada romeiro para se colocar docilmente nas mãos de Deus, sem quaisquer obstáculos, era assunto imperscrutável. O desafio estava lançado, as metas bem definidas e o primeiro rancho lá saiu com 30 irmãos. Ao longo dos anos, o número de romeiros foi aumentando. O empenho e a responsabilidade pelo trabalho produzido, mantiveram sempre elevado o nível de espiritualidade que caracterizou, desde a primeira hora, o Rancho de Romeiros de São José. Hoje sobram líderes, mas continuam a faltar oradores… bons oradores! Permita Deus, isso sim, que nunca falte os incondicionais do Evangelho. Eu rogo por ti, meu bom irmão romeiro, para que jamais desfaleça a tua fé e permaneças activo na luta pela implantação do amor de Cristo em todos os corações humanos.

 

 

publicado por igrejasaojose às 20:13 | link do post